terça-feira, 14 de agosto de 2018

ENEM 2018: O QUE MUDOU PARA A REDAÇÃO?

Todos os anos, milhares de candidatos prestam o Exame Nacional do Ensino Médio, hoje já considerado o maior vestibular do país! A cada edição da prova, algumas mudanças são propostas para aprimorá-la e torná-la ainda mais eficiente, afinal, ela é a porta de entrada para inúmeras instituições de ensino superior! Mas, afinal, ENEM 2018: o que mudou para a redação? 


No ano passado, duas alterações significativas alteraram a dinâmica da aplicação da prova e a forma de avaliação da do texto. Antes, o exame acontecia em um final de semana só, sendo assim, dois dias consecutivos de prova. Agora, são dois domingos consecutivos, proporcionando aos candidatos uma semana de descanso.
Além disso, redações que possuíam qualquer ideia que fosse contra os Direitos Humanos eram passíveis de receber nota zero. Agora não é mais permitido zerar a produção. Mas, atenção: isso não significa dizer que o aluno não será penalizado com a perda de pontos!
Para 2018, novamente quanto aos critérios de avaliação da redação, mudanças ocorreram e outras ficaram mais claras e padronizadas. Confira abaixo:
  • COMPETÊNCIA I

Antes, para conseguir a nota total nesta competência, que avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, apenas dois erros de mais simples eram aceitos, por exemplo, erros de acentuação ou de uso da vírgula. Agora, qualquer tipo de erro será aceito, desde que não ultrapasse o número de ocorrências já estabelecido. Então, atenção: apenas dois erros serão permitidos!
  • COMPETÊNCIA III

Antes, o repertório cultural, predominantemente cobrado na competência II, também era avaliado na III. Esta competência avalia, também, a seleção de informações, que devem extrapolar os textos motivadores e denotar o conhecimento de mundo do aluno. Dessa forma, ele prova sua capacidade de sair do senso comum.
Agora, porém, a competência diz respeito, apenas, às questões organizacionais do texto. Mas o repertório sociocultural permanece sendo avaliado e é extremamente importante.
  • PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

Acreditava-se que para tirar total na proposta de intervenção era preciso apresentar no mínimo duas intervenções completas, com agentes, meios e fins diferentes para cada uma delas. Na verdade, nunca houve essa especificação no manual do candidato. Preza-se, apenas, pela coerência de resolver tudo o que for problematizado.
Permanece a instrução de apresentar quemcomo e para quais propósitos, mas se uma proposta resolver tudo de forma objetiva, é suficiente.
É muito importante que você, candidato ao Enem 2018, leia o manual de redação disponibilizado pelo INEP e entenda todos os critérios pelos quais será avaliado na prova. E lembre-se: não deixe de treinar!

Bons estudos e até a próxima! 🙂

Escolas focam em ‘alfabetizar’ para vida online e em formar criadores digitais


Além da leitura em meios tradicionais, está na mira de colégios particulares e públicos o chamado letramento digital ou multiletramento. Ensina-se a lidar com informações e plataformas na internet para depois formar um desenvolvedor.


Túlio Kruse e Isabel Palhares, Túlio Kruse ((ESPECIAL PARA O ESTADO) e Isabela Palhares


Colégio Dante Alighieri trabalha " letramento digital " com crianças do ensino fundamental para ajudar a combater Fake News e outros riscos da internet  Foto: FELIPE RAU / ESTADÃO

Sem ter visto o mundo antes da internet, a geração de alunos que hoje está no ensino básico é cercada por uma nova preocupação por parte de educadores. Além do uso da leitura em plataformas tradicionais, está na mira das escolas particulares e públicas de São Paulo o chamado letramento digital ou multiletramento. Nesse caso, um dos focos é ensinar os estudantes a lidar com informações e plataformas digitais – para se tornar não só usuário, mas criador.
No Colégio Dante Alighieri, na região central paulistana, a alfabetização digital é desenvolvida do 1.º ano do ensino fundamental até o último ano do médio. “Não é ensinar o aluno a usar os dispositivos, até porque eles sabem mais do que nós, mas sim como aproveitá-los para obter ganhos acadêmicos e pessoais”, explica a coordenadora Valdenice Minatel. 
Aos 12 anos, Beatriz Cannatá, aluna do Dante, conta que sempre que lê uma notícia procura elementos para ter certeza da veracidade. “Vejo de quem é a publicação, quem confirma a informação, como é o texto, se há erros de gramática e de ortografia.”
Proposta semelhante tem o Colégio Móbile, na zona sul, que no ano passado criou um currículo de conteúdos com foco no letramento digital, permeando de forma transversal várias disciplinas do 1.º ao 9.º ano. Além de aulas básicas de linguagem de programação, os alunos também aprendem pesquisar na internet e saber quais fontes de informação são confiáveis – “para aprender mais rápido”. 
Esses conteúdos geralmente são repassados em aulas com os coordenadores de cada série. “A gente ouve por aí que os meninos são nativos digitais e sabem tudo, mas não é verdade”, diz o coordenador de tecnologia educacional da Móbile, Júlio Ribeiro. “É papel da escola fazer o aluno lidar com a tecnologia, cuidar dessa cidadania digital, e não transferir essa responsabilidade para o aluno.”
Já no Colégio Mary Ward, na zona leste de São Paulo, a proposta é usar a tecnologia como aliada nas aulas de leitura. Os estudantes são incentivados a ler os materiais de aula no próprio celular no tempo livre e pesquisar o tema por conta própria na internet. Além disso, a disciplina usa plataforma online para os debates dos temas das aulas, uma espécie de fórum virtual em que os alunos podem publicar vídeos, arquivos, fotos e músicas, e comentar.
Avanço pelas idades
Se nos anos iniciais o trabalho do colégio é focado em auxiliar as crianças a usar a tecnologia com segurança e habilidade, nos anos posteriores se busca criar produtores, e não só consumidores, do conteúdo digital – como vídeos, textos, fotos e até mesmo aplicativos. “Não é usar a tecnologia para reproduzir, mas para que eles possam criar, produzir, desenvolver”, afirma Valdenice, do Dante. 
Proporcionar aos alunos espaços de criação é também um dos objetivos do Colégio Bandeirantes. “Eles entram no 6.º ano sabendo basicamente jogar e assistir vídeos na web. Ao longo dos anos, desenvolvem habilidades de edição de texto, vídeo, áudio, programação, que auxiliam a melhorar o desempenho nas disciplinas”, diz a coordenadora Silvia Marchetto. 
A tecnologia ainda é usada para desenvolver habilidades socioemocionais, como criatividade e criticidade, no Colégio Lourenço Castanho, zona oeste. Entre as atividades propostas aos estudantes, estão criar um vídeo para a internet com a explicação de um conteúdo aprendido. “Quando propomos o uso de aplicativos e dispositivos tecnológicos, é o momento em que mais vemos os alunos em silêncio porque estão envolvidos, compenetrados”, diz Ana Paula de Farias, professora de tecnologia educacional.
Escolas públicas
A mesma perspectiva, já seguindo a tendência indicada na nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), começa a ser adotada neste mês em escolas estaduais paulistas. Dez foram selecionadas na região sul, e os professores receberão formação para ministrar aulas e oficinas de pensamento computacional e robótica aos alunos do ensino fundamental 2 e médio. 
Além disso, cada uma das escolas terá um laboratório de robótica equipado com dispositivos e ferramentas conectados à banda larga móvel da rede 4G. “Definitivamente, a tecnologia deve ser aliada da educação para construirmos um futuro melhor”, afirmou o secretário de Estado da Educação, João Cury Neto, ao lançar o projeto.
A tendência é mundial
Segundo o relatório Horizon Report 2017 para a educação básica, a chave para acelerar a adoção da tecnologia na educação a curto prazo, de um a dois anos, é o uso da programação como alfabetização e o aumento da aprendizagem Steam (sigla de Ciências, Tecnologia, engenharia, Artes e Matemática). No documento, são apontadas iniciativas que levam alunos do ensino básico nos Estados Unidos a trabalhar a Internet das Coisas e até em projetos digitais, com soluções para transporte, mudanças climáticas e otimização de recursos escassos.
O impresso não deve ser substituído, alerta especialista
Oletramento digital precisa acontecer cedo, segundo a professora Maria José Nóbrega, do Instituto Vera Cruz, e para que as crianças adquiram bons hábitos no universo online, o ensino precisa acontecer em compasso com a utilização. 
Mas ela alerta para que as mídias impressas não sejam esquecidas. "O letramento digital não substitui o impresso. Cada um desenvolve habilidades diferentes. No papel, a criança aprende mais sobre foco, paciência. Não podemos priorizar um em detrimento do outro.” Também defende um processo efetivo de aquisição da linguagem digital em todas as disciplinas. "E para que o aluno desenvolva um olhar crítico e explore ao máximo as possibilidades desse recurso, precisa da mediação do professor.” / I.P.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Enem deve seguir novo formato em 2020, diz ministro da Educação

'O Enem não deve ser o norte do ensino médio. É um exame de entrada (para a universidade). Vai se adaptar à BNCC', disse Rossieli.



                       Por Luiza Tenente e Vanessa Fajardo, G1
 

O ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva (Foto: Luiza Tenente/G1)
O ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, afirmou, nesta segunda-feira (6), que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deve seguir um novo formato em 2020. A declaração foi dada durante debate no Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, em São Paulo.
Segundo Rossieli, o Enem acompanhará as mudanças estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular do ensino médio - documento que estabelecerá um currículo mínimo para essa etapa de ensino.
"O Enem não deve ser o norte do ensino médio. É um exame de entrada (para a universidade). Vai se adaptar à base", diz o ministro.
Atualmente, o Enem é composto por questões de ciências da natureza, ciências humanas, matemática e linguagens, além da redação. A nota dos estudantes pode ser usada no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para pleitear uma vaga em universidades estaduais e federais.

Base curricular

A última versão da BNCC do ensino médio foi entregue pelo Ministério da Educação (MEC) ao Conselho Nacional de Educação (CNE) em abril de 2018.
Atualmente, ela está sendo debatida em audiências públicas pelo país. As próximas acontecerão em Belém e em Brasília.

Mudanças no ensino médio

O documento acompanha as mudanças estabelecidas pela reforma do ensino médio, aprovada em dezembro de 2017.
Prevê que apenas as áreas de linguagens e matemática deverão ser oferecidas aos estudantes obrigatoriamente nos três anos do ensino médio. Os outros campos de conhecimento podem ser distribuídos ao longo desse período, a critério das redes de ensino.
Do total da carga horária nos três anos de ensino médio, 1.800 deverão ser guiadas pela BNCC. As demais 1.200 passarão a pertencer aos "itinerários formativos", nos quais as escolas poderão oferecer uma formação acadêmica mais aprofundada em uma ou mais áreas do conhecimento, em detrimento das demais.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Enem: o que as questões de matemática 'mais difíceis' dizem sobre a educação no Brasil


Exercícios mais sofisticados nem sempre têm o maior índice de erros; BBC News Brasil levantou os dados e conversou com professores para entender pontos-chave das nossas deficiências de ensino.


Por BBC
 

Um brinquedo infantil caminhão-cegonha é formado por uma carreta e dez carrinhos nela transportados. No setor de produção da empresa que fabrica este brinquedo, é feita a pintura de todos os carrinhos para que o aspecto do brinquedo fique mais atraente. São utilizadas as cores amarelo, branco, laranja e verde, e cada carrinho é pintado apenas com uma cor. O caminhão-cegonha tem uma cor fixa. A empresa determinou que em todo caminhão-cegonha deve haver pelo menos um carrinho de cada uma das quatro cores disponíveis. Mudança de posição dos carrinhos no caminhão-cegonha não gera um novo modelo de brinquedo. Com base nas informações dadas, quantos são os modelos distintos do brinquedo caminhão-cegonha que essa empresa poderá produzir?".
A pergunta acima é a 143ª questão da prova de cor azul do Enem 2017, e exige cálculos matemáticos relativamente simples. Sua resolução consistia, basicamente, em analisar as probabilidades de combinação de cores, mas foi acertada por só 11% dos alunos; percentual baixo em meio a um total de 5 milhões de estudantes que prestaram o exame.
De acordo com levantamento feito por professores dos cursinhos Anglo, Objetivo, Etapa e Cursinho da Poli, a pedido da BBC News Brasil, esta foi a questão com o maior índice de erros da prova de matemática do Enem no ano passado. Perdeu apenas para outra questão cujo enunciado foi considerado dúbio pelos professores: a de número 160 da prova azul, sobre como pintar a logomarca da Copa, com apenas 6,5% de acertos.
Mas o que explica o alto índice de erros na questão acima? E o que ela nos conta a respeito do ensino da matemática no Brasil?
A reportagem conversou com professores, especialistas e com o Ministério da Educação para entender quais são as principais dificuldades dos alunos na disciplina, uma das mais temidas pelos alunos do ensino médio. A análise dos dados revela um resultado surpreendente: a maior porcentagem de erros ocorreu justamente nas questões menos complexas; exigiam mais capacidade de raciocínio lógico do que conhecimento de fórmulas sofisticadas.
E os especialistas alertam: apenas três das 45 questões de matemática no Enem tiveram índice de acertos superior a 50%. Ou seja, a maioria dos estudantes erra e muito – mostrando muita dificuldade na disciplina.
Crianças resolvem exercício na lousa durante a aula de matemática (Foto: Arquivo Pessoal)Crianças resolvem exercício na lousa durante a aula de matemática (Foto: Arquivo Pessoal)
Crianças resolvem exercício na lousa durante a aula de matemática (Foto: Arquivo Pessoal)

Matemática avançada ou cálculos simples?

A pedido da BBC News Brasil, professores dos cursinhos Anglo, Objetivo, Etapa e Cursinho da Poli selecionaram as questões que eles consideraram as mais complexas e de maior grau de dificuldade na prova de matemática do Enem passado, por exigirem conteúdo mais avançado em matemática. Eis uma delas:
"Para realizar a viagem dos sonhos, uma pessoa precisava fazer um empréstimo no valor de R$ 5.000. Para pagar as prestações, dispõe de, no máximo, R$ 400 mensais. Para esse valor do empréstimo, o valor da prestação (P) é calculado em função do número de prestações (n) segundo a fórmula: P = 5.000 x 1,013n x0,013 / (1,013n - 1)"
O exercício pedia a seguinte resposta: qual "o menor número de parcelas cujos valores não comprometem o limite definido pela pessoa?".
Os professores explicam: a solução desse exercício era difícil e trabalhosa: exige conhecimento de uma longa fórmula de logaritmo e a "realização de cálculos com três casas decimais, em poucos minutos que o aluno tinha para fazer, sem calculadora", explica Eduardo Izidoro Costa, professor de matemática do Cursinho da Poli. Pouco mais de 15% dos alunos a acertaram.
Outras nove questões do Enem 2017, no entanto, consideradas menos complexas pelos professores, tiveram índice de acerto ainda menor. Por que será?

'Decoreba' ou raciocínio lógico?

Mesmo sem conhecimento aprofundado em matemática avançada, há questões complexas em que os alunos se saem bem apenas por decorar longas fórmulas.
"Se o aluno sabe a fórmula, ele consegue resolver a pergunta da viagem dos sonhos (que exige conhecimento de logaritmo) ", explica Edmilson Motta, coordenador-geral da rede de ensino Etapa e que, a pedido da BBC News Brasil, levantou os índices de acertos das questões do Enem.
"Mas é muito mais do que decorar fórmulas: é a consequência de entender conceitos. Por mais que a fórmula seja bem ensinada, é preciso que os alunos entendam também a matemática como ciência", opina o professor.
Na visão dos educadores, é esse um dos principais entraves ao ensino de matemática nas salas de aula do Brasil; boa parte das aulas é mais focada em fórmulas do que no estímulo ao raciocínio lógico e ao pensamento matemático.
No Enem 2017, as questões em que os alunos mais cometeram erros exigiam mais capacidade de análise e interpretação de problemas do que a aplicação de fórmulas.
A resolução acima é da questão que abre o texto, segundo os professores do Objetivo (Foto: Reprodução)A resolução acima é da questão que abre o texto, segundo os professores do Objetivo (Foto: Reprodução)
A resolução acima é da questão que abre o texto, segundo os professores do Objetivo (Foto: Reprodução)

Mais lógica

"O ideal era ter uma ênfase maior no raciocínio. A probabilidade e análise combinatória, por exemplo, exigem que o aluno analise cenários, pensem nos casos possíveis e façam eliminações", diz à BBC News Brasil Mario Jorge Carneiro, professor emérito da UFMG e que já participou da formulação do currículo de matemática da rede estadual de ensino de Minas Gerais.
"O problema é que isso requer mais tempo de raciocínio na prova e também um ensino que ocorra mais lentamente – só que o professor tem um currículo vasto para cumprir. Não basta ensinar uma ou outra fórmula em uma ou duas semanas, isoladamente. Mas sim enxergar (esses temas) como parte de um processo que deve constar nas aulas desde o ensino fundamental, para o aluno ir absorvendo naturalmente."
Para Robby Cardoso, supervisor de matemática da rede Anglo, o aluno acaba criando uma aversão a conceitos complexos, como logaritmo e análise combinatória, quando estes são ensinados como se fossem só um tópico, em vez de permearem o ciclo de ensino como um todo.
"São conceitos que não se esgotam e podem ir sendo aprofundados ao longo do ensino, em vez de dados de uma vez só", diz Cardoso.

Falhas na formação dos professores

A tarefa traz desafios também para os professores: além do tempo limitado em sala de aula para se aprofundar em conceitos difíceis, eles têm, em muitos casos, formação insuficiente para ensinar de modo que estimule o raciocínio lógico, alertam os especialistas.
No caso da matemática, quase um terço dos docentes que ensinam a disciplina no ensino médio não têm formação específica em matemática, segundo levantamento de 2017 do movimento Todos Pela Educação.
Mas mesmo quando os professores são formados na área em que lecionam, sobram falhas na qualificação dos profissionais; falta, por exemplo, treinamento que os capacite a ensinar da forma mais didática possível.
"Mesmo um professor que não precise de formação específica em matemática precisaria que a formação pedagógica o preparasse melhor para atuar nessa área, para ser capaz de traduzir a matemática em algo palpável", opina Carneiro.

Melhoria em diversas áreas

Para a professora de matemática Katia Smole, convidada a assumir a Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), "é um fato real o desafio de (melhorar) a formação inicial e continuada do professor, mas é sempre preciso cuidado em não atribuir ao docente tudo o que não dá certo no ensino. É preciso olharmos um conjunto: melhorar os livros didáticos, a formação e dar apoio ao professor para fazer o ensino fluir".
As questões consideradas mais complexas pelos professores não necessariamente foram as com maior índice de erros (Foto: Reprodução)As questões consideradas mais complexas pelos professores não necessariamente foram as com maior índice de erros (Foto: Reprodução)
As questões consideradas mais complexas pelos professores não necessariamente foram as com maior índice de erros (Foto: Reprodução)
A resolução, segundo professores da rede Objetivo (Foto: Reprodução)A resolução, segundo professores da rede Objetivo (Foto: Reprodução)
A resolução, segundo professores da rede Objetivo (Foto: Reprodução)

Deficiência de aprendizado

Outro problema importante é que os professores do ensino médio recebem alunos já com uma grave deficiência em matemática, desenvolvida ao longo de anos de dificuldades durante o ensino fundamental.
Segundo dados da plataforma QEdu com base na Prova Brasil 2015, apenas 14% dos 2,097 milhões de alunos do 9º ano do ensino fundamental demonstraram ter aprendizado adequado nessa disciplina.
Essas dificuldades muitas vezes persistem durante a etapa final da educação básica e acabam refletindo no desempenho dos alunos nos exames finais.
"Uma grande parte dos alunos chega aqui sem sequer dominar as quatro operações matemáticas", diz Costa, do Cursinho da Poli, que atende majoritariamente alunos de baixa renda vindos de escola pública.
Outro problema, diz ele, é a dificuldade em interpretar textos, que acaba atrapalhando o entendimento de enunciados - o que também pode estar por trás da dificuldade nas questões de raciocínio.

Medalha de ouro em matemática

Mas nem tudo é negativo. Costa destaca o "encantamento" que vivem os alunos que aprendem, mesmo que tardiamente, a pensar matematicamente em vez de apenas "decorar a fórmula para resolver cada tipo de problema".
E o Brasil, apesar de amargar baixa pontuação em exames internacionais de matemática, conquistou cinco medalhas na mais recente Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), realizada neste mês na Romênia.
O destaque foi o estudante paulista Pedro Lucas Lanaro Sponchiado, de 17 anos, que conquistou o ouro e ficou em 12º lugar na colocação geral, entre mais de 600 estudantes vindos de 111 países.
Equipe da IMO 2018 que conquistou cinco medalhas e uma menção honrosa (Foto: The Red Lynx Photography/ Divulgação)Equipe da IMO 2018 que conquistou cinco medalhas e uma menção honrosa (Foto: The Red Lynx Photography/ Divulgação)
Equipe da IMO 2018 que conquistou cinco medalhas e uma menção honrosa (Foto: The Red Lynx Photography/ Divulgação)
Pedro Lucas diz que sempre se interessou pela matemática, mas foi só no sexto ano, quando chegou até a última fase da Olimpíada Brasileira de Matemática, que descobriu que gostava muito da disciplina.
"Fiquei feliz e percebi que curtia bastante o tema", conta Pedro, hoje no terceiro ano do ensino médio do colégio Etapa, em São Paulo. Faz aulas regulares e aulas extras específicas para treinar para as olimpíadas matemáticas.
Mas foram necessários sete anos de estudo para que Pedro chegasse ao seu nível atual. Ele conta que em sua cidade natal, Santa Cruz do Rio Pardo, na escola os professores e demais alunos "estavam pouco acostumados a esse tipo de interesse (pela matemática). "Pesquisava por minha conta mesmo", afirma.

Despertando mais 'matemáticos'

Como, então, fazer com que mais jovens se apaixonem pela matemática, assim como Pedro?
Robby Cardoso, do Anglo, opina que mudanças devem começar pelo material didático, que deveria incluir mais situações-problema que estimulem o raciocínio lógico, indo além das fórmulas.
Para Carneiro, da UFMG, o ideal é buscarmos "um ambiente cooperativo de aprendizado, com aulas estruturadas em projetos (a serem resolvidos pelos alunos) e com a ideia de que o professor não precisa ter toda a verdade, mas sim conduzir o aluno a investigar, com autonomia".
No entanto, acrescenta, "isso leva tempo e exige maturidade e segurança do professor quanto a seu conhecimento. E, na prática, o fato é que o professor tem tempo limitado e um (cronograma) a cumprir. Então a aula acaba sendo, muitas vezes, 'fiquem quietos enquanto eu exponho a aula e depois cobro na prova'."
Para Katia Smole, do MEC, a nova Base Nacional Comum Curricular, que definirá parâmetros de ensino para todas as escolas brasileiras, estimulará um ensino baseado em competências - como empatia, responsabilidade, cooperação e projetos de vida -, mais do que apenas em conhecimento de conteúdo.

Por que é importante pensar matematicamente?

A despeito das dificuldades do ensino, os especialistas concordam que pensar matematicamente, muito mais do que melhorar o desempenho no Enem, pode ajudar o aluno cada vez mais em qualquer profissão que ele siga no futuro.
"Logaritmos, por exemplo, ajudam a calcular desde a intensidade de um terremoto até o tempo que o corpo leva para metabolizar o álcool ou um remédio", explica Cardoso, que destaca que temas como análise combinatória, das estatísticas e das probabilidades têm tudo a ver com o cotidiano.
"Usamos para calcular quantas pessoas devem ser incluídas (em uma campanha de) cobertura vacinal, quantos números de CEP ou de placas de carro eu preciso para um determinado tamanho de população. E até mesmo quais as minhas chances de ganhar na loteria", diz Carneiro.